Um levantamento realizado pela Superintendência de Estudos Econômicos e
Sociais da Bahia (SEI) aponta que a agricultura e o setor de serviços
no Estado poderão amargar um prejuízo de até R$ 7,7 bilhões com a seca
que assola o Nordeste. Isso ocorrerá caso não chova até o mês de
outubro, completando o ciclo de um ano sem precipitações. Esta é a pior
seca em décadas, e no Estado se fala na pior em 47 anos.
Foto 31 de 83 - Açude
seco deixa pequeno plantador sem perspectiva de negócios em Santa
Brígida (BA). Mais de 750 municípios do Nordeste já decretaram situação
de emergência e mais de 4 milhões de pessoas foram afetadas
Mais Beto Macário/UOL
O estudo levou em conta três possíveis cenários. No primeiro deles, o
mais otimista, com chuvas até o início do mês de junho, o prejuízo
agrícola chegaria a R$ 3,8 bilhões. No segundo cenário, mais moderado e
considerando chuvas a partir de agosto, o déficit alcançaria R$ 5,7
bilhões. No terceiro e mais pessimista cenário, o prejuízo alcançaria R$
7,7 bilhões do PIB (Produto Interno Bruto) estadual. Segundo o IBGE, o
último PIB consolidado da Bahia é de 2009 e somou R$ 137 bilhões.
Segundo meteorologistas, não há previsão de chuva significativa para as
próximas semanas na região afetada pela estiagem –segundo alguns,
as precipitações previstas para o Estado ficarão apenas sobre o litoral, para outros, elas
devem atingir o oeste do Estado, mas sem acabar com o problema.
“Na análise do cenário pessimista considerou-se uma redução de 40% na
produção agropecuária e, como consequência, uma queda de 20% no setor de
serviços e comércio dos municípios atingidos pela seca”, apontou o
estudo.
“Essa é uma simulação para mostrar que essa seca veio realmente muito
forte. A gente tem esse terceiro cenário, que digo pessimista, mas que
possivelmente pode ocorrer se as chuvas não caírem até outubro –aí
fecharíamos um calendário agrícola inteiro de seca, com algumas culturas
perdendo as três safras. É um tipo de perda que não se pode recuperar”,
explicou ao
UOL o coordenador de Acompanhamento Conjuntural da SEI, Luiz Mário Vieira.
Segundo o levantamento, existem 446 mil estabelecimentos agropecuários
nos municípios em situação de emergência, o que corresponde a mais de
60% daqueles existentes na Bahia. Desses, 58% são pequenas propriedades,
com menos de 10 hectares de área (cada hectare equivale a 10.000 m²).
Os números ainda mostram que mais de 2,2 milhões de pessoas trabalham
nas lavouras nos municípios em situação de emergência e estão sofrendo
diretamente com a estiagem.
Feijão e milho em falta
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Lourenço Félix Araújo, 68, de Glória (BA), não acredita mais na chuva para plantar este ano
Em todo o Estado, 242 municípios decretaram situação de emergência e mais de 2,7 milhões de pessoas são afetadas pela seca.
Prejuízo maior
Mas o prejuízo deve ser ainda maior que o estimado, já que não foi
levado em conta o prejuízo da pecuária. “A pecuária é muito mais difícil
mensurar. Vamos tentar fazer isso posteriormente, quando tivermos a
noção da perda do rebanho. Há informações ainda desencontradas. Existe
também uma perda derivada, que é a oferta de leite que já está sendo
afetada. A oferta de carne também pode sofrer em alguns locais”, disse
Luiz Mário Vieira.
Para a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Faeb), a estiagem
provocará uma perda na produção geral entre 20% e 40%. Em 90 dias,
segundo a federação, as pequenas cidades do interior começarão a sentir
sinais de desabastecimento de carne bovina e o consequente aumento de
preço do produto.
A produção de leite já apresenta uma queda aproximada de um terço, o
que representa 1,5 milhão de litros por dia. Com redução de 60% na
produção no setor, as cidades de Itapetinga, Jequié e Itabuna são as que
sentem os maiores efeitos da seca.
A Faeb considera perdida a produção de feijão e milho que ainda não foi
colhida. Em diversos municípios, não houve condições para plantio. O
abastecimento deverá ser feito com os produtos vindos de Minas Gerais e
do Paraná.
Canal seco em Alagoas
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Placa mostra perigo de "afogamento" em obra do Canal do Sertão, que ainda está seco
O plantio de frutas também está prejudicado, com exceção da região do
rio São Francisco, onde não há problemas de irrigação. Por causa da
seca, o governo proibiu o uso da água para fins comerciais e liberou
apenas para abastecimento da população. A produção de abacaxi em
Itaberaba, por exemplo, já está com a safra deste ano comprometida e com
o plantio para o próximo ano atrasado.
Durante visita do
UOL ao sertão baiano,
muitos produtores se queixaram das perdas agrícolas causadas pela seca.
“Sempre planto feijão e milho, mas esse ano a chuva não veio e não
plantei nada. Ano passado perdi tudo, pois depois de maio a seca começou
a chegar e a chuva foi enfraquecendo até parar de vez em setembro”,
disse José Luís do Nascimento, 65, agricultor de Santa Brígida (a 458 km
de Salvador).
Festas juninas
Além do plantio e criação de gado, a seca afeta os festejos
tradicionais de Santo Antônio, São João e São Pedro. Até o momento, 26
municípios baianos cancelaram suas festas por causa da seca e 21
reduziram as atividades.
A orientação do Tribunal de Contas dos Municípios é para que não gastem
com os festejos juninos mais do que o gasto em anos anteriores para que
as comemorações não prejudiquem as ações de combate à seca. (Com
Agência Brasil)